Newton Goto

Artes visuais

Transborda jardim

Transborda jardim é o jardim ao redor da casa em que resido com minha família – Faetusa, Otto e Luã -, no bairro Bom Retiro em Curitiba, sede também da entidade cultural EPA! – Expansão Pública do Artista (iniciativa que coordeno desde 2001) e  da Corporacular (iniciativa coordenada por minha companheira, desde 2017). O jardim abrange tanto a área interna do lote onde está situada a casa, quanto a área externa, frontal e pública, adjacente ao lote. O nome Transborda jardim deriva justamente dessa característica de transbordamento da proposta de jardinagem para além dos limites do espaço privado, sendo cultivado também no espaço público. Outro sentido semântico soma-se a essa ideia de transbordamento, o entendimento de que o jardim e a prática de jardinagem a ele associado extrapolam o âmbito estrito da jardinagem e articulam outros conceitos, contextos e práticas culturais, inclusive artísticas.

Iniciei na jardinagem em 1994, motivado pelo desejo de criar um ambiente natural atrativo aos beija-flores, um jardim-de-beija flores, um “colibrirama”. A partir de 2015 o ambiente passou a ter grande incremento de biodiversidade, decorrente da requalificação de todo o quintal com técnica agroecológica e maior valorização de espécies nativas. Essa mudança de conceito e de prática foi inspirada no envolvimento com o ativismo de hortas urbanas agroecológicas em Curitiba (aqui). A vegetação do quintal abriga um ipê-roxo, pitangueiras, uvaia, limão rosa e outras árvores frutíferas; erva-mate, espinheira-santa e outras ervas medicinais, plantas nativas e exóticas, plantas ornamentais e comestíveis, entre outras. Em 260m² de jardim, entre área interna e externa, cultivo cerca de 266 espécies, sendo 37 atrativas de beija-flores. E há também uma biodiversidade de pássaros, de abelhas nativas, borboletas, besouros e outros insetos. Há ainda uma composteira para reciclagem dos resíduos alimentares vegetais crus e dos resíduos de jardinagem.

O lugar é pensado como ambiente de valorização da biodiversidade, espaço de produção de alimentos e de medicina natural, local de promoção de diferentes práticas sociais e de relações de vizinhança, perspectiva de construção coletiva do espaço público. A área pública do jardim abriga também a escultura Asfalto estacionado, aí alocada em 2005, instaurando uma ideia de jardim de escultura em diálogo com o ambiente urbano cotidiano.

A nomeação do espaço como Transborda jardim ocorreu em 20/04/2020 durante  início do processo de defesa do espaço e da prática de jardinagem biodiversa perante as notificações e posteriores multas absurdamente imputadas a mim pela Secretaria Municipal do Urbanismo de Curitiba. Processo ainda em curso.

Após ter  minha primeira “Defesa prévia” – de 18/08/2020 – “indeferida” pela SMU; em 05/02/2021 encaminhei novo “Recurso administrativo” para o mesmo órgão, visando re-avaliação do caso e suspensão das multas. Esse segundo documento contou com a importante contribuição de 21 colaboradores que deram um depoimento ou escreveram um texto de apoio ao Transborda jardim e à jardinagem biodiversa urbana em área de calçada, ampliando e aprofundando o debate sobre o caso e sobre a questão do uso do espaço público pela população. O documento contém também um ensaio fotográfico e editorial que fiz sobre o jardim, intensificando uma dimensão artística da documentação, sua possibilidade simultânea de ser um documento de valor jurídico e uma publicação de arte. A parte imagética contou com colaborações pontuais dos fotógrafos Carlos Nigro, Mariza Tezelli e Thaís Itapema. Os participantes dessa rede de solidariedade e de debate coletivo foram Ari Baiense, Cadu Cinelli, Carlos Alberto Alfaro Garcia, Carlos Nigro, Cássio Leandro, Denise Bandeira, Doroti Mehl, Douglas Andrade, Flávio Camargo De Mattos, Geraldo Pougy, José Farias dos Santos Filho, José Manoel Saraiva Faria, Juliano Geraldi, Luca Rischbieter, Maria Izabel Cardoso, Mariana Marques Auler, Mariza Tezelli, Ricardo Leinig, Sandra Regina Barros Ribeiro, Sergio Moura, Thaís Itapema.

Abaixo seguem links de ambos os documentos elaborados para contextualização do caso do Transborda jardim:

Recurso administrativo_Transborda jardim_05/02/2021: aqui

Defesa prévia_Transborda jardim_18/08/2020: aqui

E link da página do Transborda jardim no Facebook: aqui

Requalificação agroecológica de canteiros, Transborda jardim, 26 a 30/12/2015.

Conexões

A prática de jardinagem do Transborda jardim está em afinidade com o ideário do movimento ativista Homegrown National Park (Parque Nacional Feito-em-casa) que conclama a população a cultivar espécies vegetais nativas em seus quintais e defende que essa atitude pode ser responsável por uma das mais eficientes ações de conservação e de restauração da biodiversidade mundial na atualidade, com a vantagem de promover uma co-existência cotidiana dos humanos com a natureza: “Uma pessoa em seu tempo pode restaurar biodiversidade”. Considerando o território dos EUA, origem dessa ação ativista, se metade da área atual de jardins gramados daquele país fosse substituída por jardinagem biodiversa com plantas nativas, esses 20 milhões e acres equivaleriam à soma das áreas de 13 de seus grandes Parques Nacionais.

O movimento Homegrown National Park foi conceituado e proposto pelo entomologista e ecologista Douglas Tallamy a partir da percepção do potencial ecológico da articulação de uma rede de jardins biodiversos cultivados com plantas nativas. O comparativo entre área gramada e Parques Nacionais dos EUA está a 41’50” da apresentação em vídeo Nature’s Best Hope, de Douglas Tallamy, em 20/12/2020, na página na internet da Friends of Princetown Open Space:  https://www.fopos.org/announcements/2020/12/10/natures-best-hope-douglas-tallamy .

Written by Newton Goto

fevereiro 6, 2021 às 12:09 am

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