Newton Goto

Asfalto estacionado

Asfalto estacionado no MAM-RJ, 2002

Asfalto estacionado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. I Mostra RioArte Contemporânea, 2002

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escultura pública com módulos recombináveis. Seis blocos de asfalto com dimensões aproximadas de 2m X 80cm X 30cm e peso em torno dos 300Kg cada, feitos a partir de um mesmo padrão de molde, através da adaptação e mescla de processos industriais e artesanais de construção. As matérias primas são asfalto (CBUQ – Cocreto Betuminoso Usinado à Quente), vergalhões de ferro e concreto. Cada bloco possui uma curvatura de elevação de 10cm nos 3/4 de seu comprimento, possibilitando a sobreposição, encaixe dos módulos e combinatórias na disposição das partes. Faixas de sinalização rodoviária estão pintadas sobre os pistas. Uma placa inaugural da obra, em metal, está fixada na lateral de um bloco. Na placa, um mapa do Centro Cívico, em Curitiba, e uma imagem de Nossa Senhora da Praça Pública.

Asfalto estacionado no MAM-RJ

Asfalto estacionado no MAM-RJ

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A obra é dedicada à Praça Nossa Senhora de Salette, localizada em frente ao Palácio Iguaçu, em Curitiba, sede do poder executivo do Governo do Estado do Paraná. O motivo da homenagem é um sentimento de protesto, tornado aqui um desagravo criativo, tendo em vista o asfaltamento da área central da praça com finalidade de estacionamento e o isolamento da área com cerca. A praça, planejada e construída para ser local de manifestações públicas, para uso público, foi parcialmente transformada em estacionamento de uso privativo do poder judiciário, denunciando uma perversa lógica do urbanismo atrelado ao poder político e econômico que resulta na perda de espaço da população para automóveis, lógica em que interesses públicos perdem espaço para interesses privados. O cercamento da praça foi ato de “segurança preventiva” do estado contra ocupações populares de protesto, uma resposta ao acampamento do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – que havia montado acampamento na praça de junho a novembro de 1999. Construído o gradil de isolamento, em 2000, a praça ficou cercada até 2011, enquanto o estacionamento permanece ativo. Diante dessa “volúpia contemporânea por asfalto”, a obra Asfalto estacionado foi pensada inicialmente como uma intervenção a ocupar vagas de automóveis no estacionamento da praça, como uma estratégia para subtrair espaço de automóveis e devolver espaço para as pessoas. O obra seria uma mini-praça inserida no estacionamento, apta a receber pessoas: em pé, caminhando, deitadas. A disposição das faixas de sinalização pintadas sobre o asfalto e os relevos da “estradinha” indicam e reforçam também uma via ruim para automóveis e instigante para pessoas. Esse lugar inscrito em outro lugar foi nomeado inicialmente de Pç N. Sª da Praça Pública. Primeira aparição: Asfalto estacionado, como uma mini-praça a homenagear uma santa criada para defender os espaços públicos. A obra nunca foi disposta nesse espaço inspirador da criação, sua primeira exibição ocorreu no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 2002, e desde 2005 está instalada em área pública em frente ao Espacial EPA!, em Curitiba, em ambos os casos despertando relações inusitadas de percepção e uso com os transeuntes, fazendo valer sua vocação de obra pública.

Fotos: Marssares.

Placa inaugural da obra

Placa inaugural da obra

 

 

 

 

 

 

 

Asfalto estacionado: estradinha boa para pessoas e ruim para automóveis.

 

 

– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –

Anúncios

Written by Newton Goto

março 11, 2009 às 7:11 pm

%d blogueiros gostam disto: