09 – Asfalto estacionado

Asfalto estacionado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. I Mostra RioArte Contemporânea. (foto: Marssares)
Pç N.Sª da Pç Pública. Primeira aparição: Asfalto Estacionado
Materialidade
6 blocos de asfalto com dimensões aproximadas de 2m X 80cm X 30cm e peso em torno dos 400Kg cada, feitos a partir de um mesmo padrão de molde, através da adaptação e mescla de processos industriais e artesanais de construção. As matérias primas são asfalto (CBUQ - Cocreto Betuminoso Usinado à Quente), vergalhões de ferro e concreto. Cada bloco possui uma curvatura de elevação de 10cm nos 3/4 de seu comprimento, possibilitando a sobreposição, encaixe dos módulos e combinatórias na disposição das partes. Faixas de sinalização rodoviária estão pintadas sobre os pistas. Uma placa inaugural da obra, em metal, está fixada na lateral de um bloco. Na placa, um mapa do Centro Cívico, em Curitiba; e uma imagem de N.Sª da Pç Pública.
Aparição
NSª da Pç Pública irrompeu no imaginário como distúrbio geográfico entre as vagas de automóveis de um estacionamento construído na Praça NSª de Salette, no início dos anos 2000. Simultaneamente, apareceu como a imagem de uma mulher caminhando suavemente por uma pequena estrada, arrebentando todas as cercas.
Os sinais da obra
As ondulações estruturais de cada estradinha, as brechas e desníveis entre os blocos e as orientações de sinalização pintadas na superfície do asfalto, todos esses elementos sugerem dificuldades e obstáculos ao tráfego de veículos, armadilhas para suas rodas, desfuncionalizações de uma rodovia tradicional. As dimensões dos blocos de asfalto – aproximadas às proporções humanas – a estética instigante, e a resistência material da obra – sobre a qual pessoas podem andar e deitar – querem transformá-la num lugar atraente e aconchegante ao ser humano, uma pequena praça. Uma reconquista do espaço público.
Costumeiramente, Santas nomeiam logradouros públicos. Aqui, a Santa protege as praças públicas. E é, ela mesma, lugar. A coisa pública ressuscita e encarna em outro corpo, fazendo uso da mesma matéria asfáltica que lhe mata: Pç N.Sª da Pç Pública. Primeira aparição: Asfalto Estacionado.
Êxodos
A Pç viajou sobre rodas rumo ao museu de arte, realizando seu êxodo místico pelas BRs do Brasil. Partiu de Curitiba, em 2002, expondo sua aura e pregando sua existência no consagrado Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Alocou-se no pátio externo do museu, garantindo contato gratuito com as pessoas. Posteriormente, regressou à terra natal, onde existe discretamente em espaço público, estacionada em frente à casa de seu hospedeiro, enquanto não chega o tempo de encontro com sua vaga prometida.

Placa inaugural da obra

Pç NS.a da Pç Pública. 1.a aparição: Asfalto estacionado
Sobre_a_praça_homenageada
O trabalho é uma homenagem à Pç. NSª da Salette, localizada defronte ao Palácio Iguaçu, sede do Governo do Estado do Paraná, em Curitiba.
Essa praça compõe o núcleo do Centro Cívico, área cujo projeto remonta a algumas das diretrizes urbanísticas previstas pelo Plano Agache, concebido pelo francês Alfred Agache em 1943 – uma das primeiras iniciativas do gênero no Brasil. O Centro Cívico (congregando as sedes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário estaduais, assim como, posteriormente, a própria Prefeitura de Curitiba), juntamente com o Teatro Guaíra, a Biblioteca Pública do Paraná e a Praça 19 de Dezembro, compuseram o destacado conjunto de obras que então se construíam para celebrar o Centenário da Emancipação Política do Paraná, em 1953, época do governo de Bento Munhoz da Rocha Neto: afirmava-se assim o progresso e a modernidade regionais. O projeto do Centro Cívico recebeu diversas modificações e retificações ao longo dos vários anos de sua construção. A praça central foi utilizada para manifestações políticas e celebrações, como lugar público de encontro e lazer.
Em meados de 1999 instalou-se na praça um grande acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, cujos integrantes protestavam contra as violentas desocupações simultâneas promovidas pelo Governo Jaime Lerner no interior do Paraná, e reivindicavam ações mais eficazes voltadas à reforma agrária. No final daquele ano a praça foi também violentamente desocupada pela polícia, e como medida preventiva para evitar novas manifestações populares semelhantes, o local foi cercado com um gradil de ferro e parcialmente transformado em estacionamento. Não deixa de ser no mínimo irônico o fato de NSª de Salette ser padroeira dos camponeses. Ainda que pessoas tenham continuado por lá transitando, e mesmo usando a área, houve aí, simbolicamente e na prática, uma perda de espaço público, carros ocuparam lugar de pessoas (1). O cercamento e asfaltamento da praça pode talvez até ser percebido com surpresa por alguns, visto que a ação foi ordem governamental de um reconhecido urbanista cuja trajetória pessoal havia sido construída na realização de inovadores e importantes projetos para a capital paranaense, quando esteve à frente da gestão Municipal. Contudo, algum tempo após a desocupação da Praça, ocorreu uma manifestação em frente ao Palácio Iguaçu promovida por fazendeiros montados em cavalos, os quais perfilaram para agradecer ao governador o retorno da “ordem no campo”. A conexão dos fatos insinua para que povo se governa… Isso antes do então governador ter sido condenado (simbolicamente) por um Tribunal Internacional contra os crimes do latifúndio ocorrido em Curitiba (fato eficientemente abafado na mídia).
Sabe-se lá quando, no portão de acesso a esse estacionamento, uma placa foi fixada: estacionamento privativo – exclusivo funcionários do palácio de justiça. Ao lado de uma guarita. Reeditam-se as perguntas: quem policia a polícia? Quem julga os juízes? Quem governa os governantes? Anos se passaram, sucedeu outro governador, Roberto Requião – personagem político com lastros históricos de esquerda, e que polariza ideologicamente com seu antecessor a recente história política do Paraná. Ainda assim a praça está quase como antes, cercada e parcialmente asfaltada.
Nota:
(1) A voracidade dos estacionamentos para carros não se limita à tomada das praças públicas, eles engoliram também antigos cinemas do centro da cidade, e até históricas estações de trem. E não estiveram sós nessa missão de conquista do melhor ponto para sua clientela, enfrentaram a concorrência das igrejas evangélicas. O centro da cidade foi praticamente varrido de seus cinemas, os quais migraram para os shoppings, que não param de se multiplicar, como num milagre capitalista. A privatização da vida vai ganhando terreno. Nem todos estão insatisfeitos, muitos dizem que os cinemas dos shoppings são mais seguros, têm até estacionamentos.

- Asfalto estacionado: o asfalto bom para as pessoas e ruim para os automóveis