Newton Goto

o cowboy da malboro morreu de câncer no pulmão

05 – Remix corpobras

Remix Corpobras na Vitrine Efêmera, Rio de Janeiro, 2004.

Remix Corpobras na Vitrine Efêmera, Rio de Janeiro, 2004.

Remix Corpobras resulta do Mestrado que realizei em Linguagens Visuais na UFRJ entre 2002 e 2004. O projeto é composto por uma Dissertação, uma exposição no espaço de arte Vitrine Efêmera (Santa Teresa, Rio de Janeiro), uma proposta de troca e participação criativa, e pela edição de uma revista. Essas partes são as camadas de circuitos da obra.

A autogestão de circuitos artísticos e a participação criativa são pensadas como dimensões políticas do trabalho artístico.

A pesquisa teórica estabelece reflexões sobre o conceito de política na arte e faz um mapeamento de ações de autogestão cultural no circuito de artes plásticas brasileiro. A proposta prática investe na estratégia de afirmação de circuito heterogêneo, inspirada nos ideários de “política heterogênea” de Alain Badiou, “biopolítica produtiva” de Toni Negri, “microplítica do afeto” de Vera Silvia Magalhães e no repertório dos atuais circuitos artísticos autodependentes existentes no Brasil.

A pesquisa revisitou também o período da ditadura militar brasileira, desejando contribuir numa revisão histórica e crítica do ambiente social e artístico, e tocar em questões relativas à amnésia e recalque coletivos sobre a história e a história da arte do país, insinuando sobre ações de lobotomia social planejadas pelo Estado à época da ditadura, assunto esse ainda inadequadamente debatido no Brasil contemporâneo.

A prática artística iniciou na Vitrine Efêmera com a exposição de roupas íntimas serigrafadas com slogans da ditadura brasileira, forçando analogias de aproximação e distanciamento sobre a arte política dos anos 70 e 2000, incorporando assim elementos históricos como matéria-prima do trabalho, numa aproximação de significados entre repressão da ditadura do Estado X intimidade e liberdade do corpo individual e coletivo, e repressão imposta X autorepressão introjetada.

Uma troca com o público foi proposta: uma peça de roupa íntima por algum registro de seu uso – registros esses posteriormente agregados na revista Remix corpobras. O corpo como obra, Corpobra de protesto e escândalo de Antônio Manuel em 1970, e corpos como obra de política de participação criativa em Remix corpobras, linguagem de remix de contextos.

Participaram do projeto Fabiana dos Santos, Cristina Pape, Octávio Camargo, Sérgio Torres, Rosana Cantanhede, RhR, Glória Ferreira, Marisa Calage, Eliane Longo, Hélio Leites, Ricardo Marinelli, Michele Moura, Lauro Borges, Silvia Viana, Eduardo Barbosa, Marize Rocha e Goto.

Os slogans da ditadura serigrafados nas roupas íntimas foram: Ame-o ou deixe-o / Povo desenvolvido é povo limpo / O Brasil merece o nosso amor / Ninguém segura este país / Pra frente, Brasil! / O Brasil é feito por nós / O Brasil é o celeiro do mundo / O Brasil é o país do futuro.

Posteriormente a pesquisa teórica fundamentou a elaboração do texto Sentidos (e circuitos) políticos da arte, publicado em alguns veículos de arte, e também a curadoria do projeto Circuitos Compartilhados.

Escrito por Newton Goto

abril 1, 2009 às 3:47 pm

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