04 – Mapas do Estado Novo

Mapa Destacada Presença
Em lembrança dos 50 anos da morte de Getúlio Vargas, fui convidado juntamente com outros 4 artistas a desenvolver um projeto no espaço expositivo do Museu da República, no Rio de Janeiro. A proposta Mapas de Um Estado Novo parte de uma leitura cartográfica de todas as cidades capitais de Estado do Brasil. Os mapas utilizados são os de listas telefônicas e de endereços. A partir da localização de logradores públicos denominados Getúlio Vargas, os quais foram marcados com caneta, os quadrantes relativos a essa presença foram realocados para a construção de 3 novos mapas, sob os seguintes critérios:
1) logradouros públicos com destacada presença;
2) presença discreta ou inexistente;
3) composição revolucionária.
Nesse 3º mapa foram reorganizadas as geografias das capitais dos Estados que formaram a aliança de sustentação política de Getúlio Vargas durante a Revolução de 30: Porto Alegre, Belo Horizonte e João Pessoa, e também Rio de Janeiro, a capital federal à época. Historicamente essas articulações regionais puseram fim à política do “café com leite” da Primeira República no Brasil e posteriormente implantaram o Estado Novo. Neste último mapa ainda, os logradouros públicos com os nomes dos principais articuladores políticos e outros personagens de destaque foram realçados, entre eles Oswaldo Aranha, Antônio Carlos, João Pessoa e o próprio Getúlio Vargas. Com a organização desses 3 mapas é possível perceber como os poderes regionais instituídos posicionaram-se frente ao novo governo federal, evidenciando sobre a cartografia nacional a manifestação de uma geografia de poderes políticos, de aliados a opositores. Como exemplo emblemático dessa constatação nota-se a presença ínfima da Rua Getúlio Vargas na cidade de São Paulo, justamente no bairro Vila Maria, reduto petebista (partido fundado por Getúlio). A importância da rua é tão secundária e sua extensão tão curta que algumas vezes a “Travessa Getúlio Vargas” é indicada pela abreviatura “Tv GV” para poder conseguir aparecer no mapa da gigante São Paulo. A cartografia ratifica: desde a interrupção da política do “café com leite”, principalmente pelo “café” em questão, o Estado de São Paulo tornou-se o maior e mais tradicional inimigo político da Era Vargas.
Posteriormente, a leitura das cartografias revelou um outro mapa (um quarto Estado Novo), feito a partir da identificação de logradouros públicos Filinto Müller (natural de Cuiabá), o chefe de polícia responsável pela faceta mais tenebrosa do primeiro governo Vargas: perseguições políticas, repressão, torturas e assassinatos. Pois até ele (posteriormente eleito Senador) conseguiu seu respeitável lugar na história, nomeando grandes avenidas de Cuiabá e Campo Grande, além de algumas outras aparições. Ironicamente, em Campo Grande, a Av Senador Filinto Müller passa em frente a um cemitério. A valorização desse personagem da vida política indica o quanto as homenagens oficiais, batismos de praças e ruas das cidades e a própria construção da história pode estar à mercê do autoritarismo das oligarquias regionais e/ou nacionais, muito mais que em função do reconhecimento de um verdadeiro mérito coletivo.
OBS.: Os três primeiros mapas citados no texto, dos quais dois estão aqui postados, participaram da Exposição Getúlio Presidente do Brasil. Museu da República, Rio de Janeiro, 24/08 a 31/10/ 2004

Mapa Discreta Presença
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Mapa Filinto Müller